E se?

Sempre que tu vai embora eu penso besteira.

Eu penso em como seria se tu ficasse.

As horas passam,

os pensamentos também.

Mas e se o tempo parasse?

 

E se?

Gosto do contraste

da tua pele na minha

sei exatamente onde eu começo

e tu termina

dentro de mim.

Ignorância

Sentada em frente a janela

o dia nublado

no ar a umidade de alguns pingos que ainda caíam.

Dentro dela já não sentia mais o cheiro dele

não conseguia mais dimensionar a sua altura,

por mais que o lembrasse alto

mas as pintas

em suas costas nuas, ah…

lembrava claramente dos longos minutos

que perdera tocando com a ponta dos dedos

cada uma

como num jogo de ligar os pontos,

enquanto ele permanecia de olhos cerrados

e os raios do sol que já ia alto

entravam pelas frestas da janela fechada

Até hoje não sabia bem o que tinha acontecido

como tinha se enamorado por alguém

que se fazia tão indiferente a ela.

Mas aconteceu,

e acontecia.

Ignorância

Oportunidades

Sempre se sentiu bem andando de ônibus,

desde criança quando insistia com a mãe para ficar em pé exercitando o pouco equilíbrio que possuía.

Depois dessa fase, sentava sempre à janela.

Diferente de alguns não criara esse hábito

por sentir-se enjoada ou algo dessa natureza.

Fazia para ver.

Olhava todas as janelas que passavam

Janelas que não eram dela

E cada uma daquelas janelas,

ela sabia, era uma decisão diferente que tomara.

Se tivesse aceitado de volta aquele que um dia amara, estariam eles na janela marrom de cantos arredondados, cor de terra, de coisa que pesa.

Se tivesse sido mais amável com os que conhecia talvez tivesse mais amigos ou amigos diferentes

E agora sentariam à mesa nas janelas com persianas em madeira na cor vinho, item esse que jamais faltaria.

Se tivesse ela escolhido profissão diversa, do que aquela de ouvir e contar histórias,

Talvez estivesse na janela com grade de ferro amarela, janela de quem tem muito, de quem tem de sobra…

Não pense que ela ficava sombria com os futuros que não eram o seu dançando frente aos seus olhos.

Pelo contrário. Se divertia, a cada nova cor e formato de janela

Ela gostava de imaginá-los, de brincar com eles.

Não a entenda mal, ela adorava o seu!

Contudo, lhe aprazia saber que o escolhera conscientemente.

Oportunidades

Esses vazios todos…

Curioso como o dia a dia tira de nós pequenos pedaços, detalhes que às vezes a gente nem percebe.

Mas ele vai tirando, num dia um, no dia seguinte outro. E quando a gente se depara com a morte, e eu não to falando de um carro que buzina no trânsito e nem com a arma de um pivete no ônibus, eu to falando da morte natural, aquela que vem como onda do mar, e leva tudo consigo. Aquela que por mais que a gente crie ilusões a respeito, a gente não consegue evitar.

Quando a gente enxerga vestígios dela no corpo de quem a gente ama, no corpo de quem sempre foi sorrisos e abraços, de quem sempre foi incentivo e carinho, a gente percebe. Percebe o tanto de pedacinhos que a gente perdeu, e o quanto cada pedacinho desses era uma oportunidade de estar com esses alguéns que amam a gente, mesmo se o nosso cabelo estiver desgranhado, mesmo se a gente não for tão bem assim na prova, ou se a gente não souber de que meme tanto falam essa semana.

E tá tudo bem, tá tudo bem saber dos memes e hidratar o cabelo, mas também tá tudo bem parar tudo de vez em quando e se reconectar com todos os vazios, enxergá-los com os olhos de ver e enchê-los. Enchê-los com todas essas coisas que querem fazer parecer errado sentir, com quereres e desejos, com afagos e mãos que se esbarram ao caminhar, se juntam e permanecem entrelaçadas, com olhares demorados e palavras doces, ainda que duras, e com corpos que não tenham pudor ao se tocar.

Esses vazios todos…

Passou.

Afastou dos lábios a xícara com o café recém passado e a colocou ao lado do computador, fazia um esforço imenso para lembrar a última vez que tinha criado uma poesia.

Uma dessas que falam daquilo que viveu, daquilo que foi tão belo ou tão triste (e por mais que a ingenuidade dela não a deixasse crer, às vezes as duas coisas com a mesma pessoa) a ponto de exigir o registro em versos.

Não foi capaz de lembrar. Se deu por vencida sem um pingo de sofrimento. Afinal isso não importava tanto assim. Tinha tanto sentimento no peito, que quase sufocava com o desejo correndo pelo corpo feito o mar na maré alta, levando tudo que encontra no caminho.

Ela era peculiar,  não simpatizava com todos, e não sabia disfarçar o quer que sentisse. Nem tentava na verdade. Ele era gentil, a primeira vista reservado e educado. Ela a primeira vista causava desejo ou repulsa, era desse tipo de pessoa que a gente tem que reagir, ninguém fica indiferente.

Mas quis o acaso que ela pausasse a escrita de tão bela história, talvez para estudar, para vê-lo ou para ver-se no fundo de um copo em seu bar favorito. Não sei qual vento a levou, o certo é que o levou também, cheio de sorrisos e pudores, pra longe dela.

Ela já sorri outra vez, sem culpa. Porque sabe que quis muito encontrar nos braços dele algo que a fizesse permanecer, ela tentou, contudo não conseguiu. Não foi uma falha, porque não havia acertos e erros. Eram dois seres, que não estão mais compartilhando a existência.

Passou.

Passou.

O mofo

Esses dias cinzentos,

sem chuva e sem sol

eu gosto deles.

Porque quando olho pra fora,

não tem muito pra ver

acabo voltando pra dentro

Como se a umidade

acentuasse os sentimentos

como faz com o mofo

no teto do banheiro lá de casa,

deixa aparente.

O mofo